‘Minha vida estava em risco’, conta afegão que fugiu do país para não lutar pelo Talibã

Kazem está no Brasil participando de palestras para contar sobre a vida de um refugiado Divulgação O Talibã retomou o controle do Afeganistão em agosto do ano passado, acelerando o processo de retirada das tropas dos Estados Unidos do país. Entretanto, a influência do grupo extremista nunca deixou de existir, como conta o refugiado Kazem Ahmad. O afegão precisou deixar o país em 2011, segundo ele, por se negar a participar do exército talibã que recrutava os jovens, mesmo com a presença americana. “A minha história é muito parecida com a de muitos jovens do meu país: não queria fazer parte do exército do Talibã. No Afeganistão, você é praticamente forçado a fazer isso depois dos 12 anos”, conta Ahmad ao R7. “Minha vida estava em risco, porque se você nega, eles te ameaçam de morte”. De acordo com Ahmad, os familiares dele também seriam ameaçados caso ele não se juntasse ao grupo extremista. O contato com os jovens começa por cartas, continua por ligações telefônicas, até o momento em que familiares são mortos pelo grupo. Tenho ainda parentes no Afeganistão, como tios e primos, que contam uma rotina de miséria e violência bem parecida com a do primeiro governo do Talibã. Difícil ter esperança com essa gente no poder A convite da organização Planeta de TODOS, Ahmad está no Brasil com o objetivo de contar um pouco de sua história e conscientizar brasileiros sobre a vida de um refugiado. A jornada do afegão, porém, começou 11 anos atrás, quando fugiu para o Irã. “Morei [no Irã] por seis anos realizando diversos tipos de trabalho. Mas refugiados afegãos no Irã são considerados ‘de segunda linha’, ou seja, não temos qualquer tipo de direito à educação, saúde, emprego formal, etc.” Kazem vive atualmente na Grécia, onde trabalha como tradutor Divulgação Apesar de ter fugido dos grupo extremisnta, o preconceito dos iranianos com Ahmad fez com que a passagem pelo país tenha sido difícil. O refugiado alega que o povo do Irã “odeia” os afegãos. Por esse motivo, o jovem decidiu ir para a Grécia, passando pela Turquia. Ao chegar em Atenas, Ahmad enfrentou as dificuldades de um refugiado que busca asilo na Europa Ocidental. Com processos burocráticos e pouco assistência governamental, o jovem afegão acabou sendo preso por falta de documentação. “Na Grécia, o sistema de asilo é muito complicado. Para você conseguir um agendamento para fazer a solicitação formal, você tem apenas uma hora num determinado dia da semana para ligar para um número via Skype e fazer esse procedimento. É quase impossível de conseguir, porque são muitas pessoas tentando ao mesmo tempo.” Tentei pedir asilo por nove meses e não consegui. Até o dia em que fui parado pela polícia local e, por não ter documentos, fiquei preso por três meses Apesar da detenção, foi no presídio destinado a presos sem documentação legal que Ahmad finalmente conquistou o asilo político. O refugiado conta que muitos governos mundo afora não têm cuidado com pessoas que buscam abrigo, como no caso dos afegãos. “Não existe qualquer tipo de ajuda de governos, ou ONGs, nesse caso. Você, infelizmente, com as fronteiras fechadas, tem que arriscar a sua vida negociando com os traficantes de pessoas, além de pagar muito dinheiro para isso. Não existe outra forma, por não termos documentos, somos considerados ilegais e temos que nos arriscar para fugir dos nossos próprios problemas enquanto a perseguição e violações de direitos humanos.” Veja também Internacional Justiça talibã condena sete réus a 35 chicotadas no Afeganistão Internacional Talibãs fecham comissão de direitos humanos por 'não considerá-la necessária' Internacional Talibã: apresentadoras de TV no Afeganistão devem cobrir o rosto Atualmente, Ahmad trabalha na Grécia como interprete de farsi, inglês e grego. O jovem convenceu os pais e irmãos de irem para a Europa, atualmente vivendo na Alemanha. Ele sonha em um dia voltar ao Afeganistão, mas com o Talibã retomando o país, ele confessa que o objetivo ficou um pouco mais distante. "É o meu sonho, retornar à minha terra natal. É o sonho de todos. As pessoas têm que entender que os refugiados não deixam seus país porque querem fazê-lo. Simplesmente não temos outra opção. Com o Talibã de volta ao poder, esse meu sonho é ainda mais distante. Espero que um dia eu consiga."

‘Minha vida estava em risco’, conta afegão que fugiu do país para não lutar pelo Talibã
Kazem está no Brasil participando de palestras para contar sobre a vida de um refugiado
Kazem está no Brasil participando de palestras para contar sobre a vida de um refugiado Divulgação

O Talibã retomou o controle do Afeganistão em agosto do ano passado, acelerando o processo de retirada das tropas dos Estados Unidos do país. Entretanto, a influência do grupo extremista nunca deixou de existir, como conta o refugiado Kazem Ahmad.

O afegão precisou deixar o país em 2011, segundo ele, por se negar a participar do exército talibã que recrutava os jovens, mesmo com a presença americana.

“A minha história é muito parecida com a de muitos jovens do meu país: não queria fazer parte do exército do Talibã. No Afeganistão, você é praticamente forçado a fazer isso depois dos 12 anos”, conta Ahmad ao R7. “Minha vida estava em risco, porque se você nega, eles te ameaçam de morte”.

De acordo com Ahmad, os familiares dele também seriam ameaçados caso ele não se juntasse ao grupo extremista. O contato com os jovens começa por cartas, continua por ligações telefônicas, até o momento em que familiares são mortos pelo grupo.

Tenho ainda parentes no Afeganistão, como tios e primos, que contam uma rotina de miséria e violência bem parecida com a do primeiro governo do Talibã. Difícil ter esperança com essa gente no poder

A convite da organização Planeta de TODOS, Ahmad está no Brasil com o objetivo de contar um pouco de sua história e conscientizar brasileiros sobre a vida de um refugiado. A jornada do afegão, porém, começou 11 anos atrás, quando fugiu para o Irã.

“Morei [no Irã] por seis anos realizando diversos tipos de trabalho. Mas refugiados afegãos no Irã são considerados ‘de segunda linha’, ou seja, não temos qualquer tipo de direito à educação, saúde, emprego formal, etc.”

Kazem vive atualmente na Grécia, onde trabalha como tradutor
Kazem vive atualmente na Grécia, onde trabalha como tradutor Divulgação

Apesar de ter fugido dos grupo extremisnta, o preconceito dos iranianos com Ahmad fez com que a passagem pelo país tenha sido difícil. O refugiado alega que o povo do Irã “odeia” os afegãos. Por esse motivo, o jovem decidiu ir para a Grécia, passando pela Turquia.

Ao chegar em Atenas, Ahmad enfrentou as dificuldades de um refugiado que busca asilo na Europa Ocidental. Com processos burocráticos e pouco assistência governamental, o jovem afegão acabou sendo preso por falta de documentação.

“Na Grécia, o sistema de asilo é muito complicado. Para você conseguir um agendamento para fazer a solicitação formal, você tem apenas uma hora num determinado dia da semana para ligar para um número via Skype e fazer esse procedimento. É quase impossível de conseguir, porque são muitas pessoas tentando ao mesmo tempo.”

Tentei pedir asilo por nove meses e não consegui. Até o dia em que fui parado pela polícia local e, por não ter documentos, fiquei preso por três meses

Apesar da detenção, foi no presídio destinado a presos sem documentação legal que Ahmad finalmente conquistou o asilo político. O refugiado conta que muitos governos mundo afora não têm cuidado com pessoas que buscam abrigo, como no caso dos afegãos.

“Não existe qualquer tipo de ajuda de governos, ou ONGs, nesse caso. Você, infelizmente, com as fronteiras fechadas, tem que arriscar a sua vida negociando com os traficantes de pessoas, além de pagar muito dinheiro para isso. Não existe outra forma, por não termos documentos, somos considerados ilegais e temos que nos arriscar para fugir dos nossos próprios problemas enquanto a perseguição e violações de direitos humanos.”

Atualmente, Ahmad trabalha na Grécia como interprete de farsi, inglês e grego. O jovem convenceu os pais e irmãos de irem para a Europa, atualmente vivendo na Alemanha. Ele sonha em um dia voltar ao Afeganistão, mas com o Talibã retomando o país, ele confessa que o objetivo ficou um pouco mais distante.

"É o meu sonho, retornar à minha terra natal. É o sonho de todos. As pessoas têm que entender que os refugiados não deixam seus país porque querem fazê-lo. Simplesmente não temos outra opção. Com o Talibã de volta ao poder, esse meu sonho é ainda mais distante. Espero que um dia eu consiga."