'Medida provisória': 'Coisas que a gente pensava serem alertas aconteceram na vida real', diz Lázaro Ramos

Dirigido pelo ator e com Taís Araújo, Seu Jorge, Emicida e Alfred Enoch no elenco, o filme mostra uma distopia em que os negros são obrigados a deixar o país. Assista ao trailer de 'Medida provisória' Em um Brasil do futuro, mas não muito longe do que vemos hoje, uma medida provisória baixada pelo governo obriga pessoas negras a deixarem o país e irem para África, em uma espécie distorcida de reparação histórica. Entram forças policiais para garantir que nenhum cidadão de "melanina acentuada", como são chamadas as pessoas negras, fique no país. Este é o fio condutor do filme "Medida provisória", dirigido por Lázaro Ramos, e que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas. Inspirado na peça de teatro "Namíbia, não!", de Aldri Anunciação, o filme apresenta a luta anti-racista dentro de um roteiro que traz tensão, angústia, drama e pinceladas de sarcasmo. E o diretor já avisa: tem que assistir até depois dos créditos. 'Medida provisória' Divulgação "Esse filme é uma mistura de gêneros e nos diz que é possível falar dessas questões tão importantes, como é a luta antirracista, a nossa identidade, também pelo humor, seguir para ação, aventura, e depois ir para o drama. Isso me interessou muito porque acessa a sensibilidade do espectador de um lugar diferente", afirma Lázaro. O enredo apresenta Antônio (Alfred Enoch), um advogado ativista pelos direitos dos negros, sua mulher, Capitu (Taís Araújo), uma médica em um grande hospital, e André (Seu Jorge), seu primo e jornalista que também está na luta antirracista. Assim que a medida entra em vigor, o trio tenta ao mesmo tempo escapar da polícia e resistir na cidade. 'Medida provisória' Divulgação "A Capitu se adaptou a um ambiente muito branco, elitista, que não era acolhedor", afirma Taís. "Ela escolheu não falar de assuntos incômodos. O racismo é um assunto incômodo para o brasileiro, então, é mais fácil fingir que não existe para chegar em determinados lugares", diz. Segundo Taís, é interessante como a personagem ganha força e identidade durante o filme. "Faltava o letramento racial e ela adquire a partir do momento em que vê: ou você leva essa questão a sério e se defende, ou vai morrer, vai perder sua liberdade, vai ser mandada para um lugar que não escolheu", diz. "É sobre a liberdade, é sobre a questão de mulheres negras que ascendem socialmente e, muitas vezes, tem que abrir mão da negritude para se sentir pertencente." As tiradas mais irônicas aparecem com o personagem de Seu Jorge e seu embate com Isabel (Adriana Esteves), funcionária do governo, responsável por colocar a medida para expulsar os brasileiros em prática, e com a vizinha racista Dona Izildinha (Renata Sorrah). Há também cenas bem parecidas com as quais vimos na história recente do país, o que rende as boas sacadas do roteiro. "Esses alívios cômicos são muito importantes para contar uma história dramática, pesada. Se não tiver, a gente não consegue ver, é difícil de aguentar", conta Taís. 'Medida provisória' Divulgação "As pessoas estão muito envolvidas com a história, porque tem entretenimento junto, tem relevância. É lindo receber as mensagens das pessoas, às vezes dois dias depois, falando que não pararam de pensar no filme", diz Lázaro. O projeto de "Medida provisória" como filme surgiu em 2012 e as filmagens foram feitas em 2019. "Quando começamos a escrever o roteiro, era tudo um exercício de criar uma história distópica, pensar em situações que a gente não gostaria de ver acontecendo no Brasil", lembra o diretor. "O tempo passou. Várias das coisas que a gente pensava serem alertas aconteceram na vida real", diz. "A realidade precisa ser repensada. O espelho chegou na nossa cara, e cabe à gente agora entender o que vai fazer isso." Para ele, apesar de se tratar de uma distopia, o filme deve ser uma oportunidade para revermos a história do Brasil. "A gente teve um processo de anos de escravização e que um papel foi assinado depois de muita luta do povo negro para se libertar", afirma. "Depois da assinatura, as pessoas são jogadas na rua, sem emprego, sem sustento, sem casa. Logo a capoeira é criminalizada, a prática da religião é criminalizada. Esse processo de expulsão já existiu, a gente sofre as consequências até hoje e eu não sei se as pessoas têm consciência disso." O filme, de acordo com ele, vem abrir essa janela, para que o público possa enxergar a realidade do dia a dia. Para isso, ele ressalta a participação da professora Diva Guimarães no longa. 'Medida provisória' Divulgação Ela ficou conhecida em 2017, quando se levantou da plateia de um debate de Lázaro e da jornalista Joana Gorjão Henriques, na FLIP daquele ano, para dar um depoimento sobre o racismo sofrido quando era pequena. "Ela está ali não só pela admiração e pelo que vivemos. É para voltar e abrir a janela daquele depoimento de 13 minutos, que é muito forte e faz parte da história do Brasil. O filme está cheio dessas janelas." Além dos desafios do orçamento, trocas de roteiristas e pandemia, motivos mais

'Medida provisória': 'Coisas que a gente pensava serem alertas aconteceram na vida real', diz Lázaro Ramos

Dirigido pelo ator e com Taís Araújo, Seu Jorge, Emicida e Alfred Enoch no elenco, o filme mostra uma distopia em que os negros são obrigados a deixar o país. Assista ao trailer de 'Medida provisória' Em um Brasil do futuro, mas não muito longe do que vemos hoje, uma medida provisória baixada pelo governo obriga pessoas negras a deixarem o país e irem para África, em uma espécie distorcida de reparação histórica. Entram forças policiais para garantir que nenhum cidadão de "melanina acentuada", como são chamadas as pessoas negras, fique no país. Este é o fio condutor do filme "Medida provisória", dirigido por Lázaro Ramos, e que estreia nesta quinta-feira (14) nos cinemas. Inspirado na peça de teatro "Namíbia, não!", de Aldri Anunciação, o filme apresenta a luta anti-racista dentro de um roteiro que traz tensão, angústia, drama e pinceladas de sarcasmo. E o diretor já avisa: tem que assistir até depois dos créditos. 'Medida provisória' Divulgação "Esse filme é uma mistura de gêneros e nos diz que é possível falar dessas questões tão importantes, como é a luta antirracista, a nossa identidade, também pelo humor, seguir para ação, aventura, e depois ir para o drama. Isso me interessou muito porque acessa a sensibilidade do espectador de um lugar diferente", afirma Lázaro. O enredo apresenta Antônio (Alfred Enoch), um advogado ativista pelos direitos dos negros, sua mulher, Capitu (Taís Araújo), uma médica em um grande hospital, e André (Seu Jorge), seu primo e jornalista que também está na luta antirracista. Assim que a medida entra em vigor, o trio tenta ao mesmo tempo escapar da polícia e resistir na cidade. 'Medida provisória' Divulgação "A Capitu se adaptou a um ambiente muito branco, elitista, que não era acolhedor", afirma Taís. "Ela escolheu não falar de assuntos incômodos. O racismo é um assunto incômodo para o brasileiro, então, é mais fácil fingir que não existe para chegar em determinados lugares", diz. Segundo Taís, é interessante como a personagem ganha força e identidade durante o filme. "Faltava o letramento racial e ela adquire a partir do momento em que vê: ou você leva essa questão a sério e se defende, ou vai morrer, vai perder sua liberdade, vai ser mandada para um lugar que não escolheu", diz. "É sobre a liberdade, é sobre a questão de mulheres negras que ascendem socialmente e, muitas vezes, tem que abrir mão da negritude para se sentir pertencente." As tiradas mais irônicas aparecem com o personagem de Seu Jorge e seu embate com Isabel (Adriana Esteves), funcionária do governo, responsável por colocar a medida para expulsar os brasileiros em prática, e com a vizinha racista Dona Izildinha (Renata Sorrah). Há também cenas bem parecidas com as quais vimos na história recente do país, o que rende as boas sacadas do roteiro. "Esses alívios cômicos são muito importantes para contar uma história dramática, pesada. Se não tiver, a gente não consegue ver, é difícil de aguentar", conta Taís. 'Medida provisória' Divulgação "As pessoas estão muito envolvidas com a história, porque tem entretenimento junto, tem relevância. É lindo receber as mensagens das pessoas, às vezes dois dias depois, falando que não pararam de pensar no filme", diz Lázaro. O projeto de "Medida provisória" como filme surgiu em 2012 e as filmagens foram feitas em 2019. "Quando começamos a escrever o roteiro, era tudo um exercício de criar uma história distópica, pensar em situações que a gente não gostaria de ver acontecendo no Brasil", lembra o diretor. "O tempo passou. Várias das coisas que a gente pensava serem alertas aconteceram na vida real", diz. "A realidade precisa ser repensada. O espelho chegou na nossa cara, e cabe à gente agora entender o que vai fazer isso." Para ele, apesar de se tratar de uma distopia, o filme deve ser uma oportunidade para revermos a história do Brasil. "A gente teve um processo de anos de escravização e que um papel foi assinado depois de muita luta do povo negro para se libertar", afirma. "Depois da assinatura, as pessoas são jogadas na rua, sem emprego, sem sustento, sem casa. Logo a capoeira é criminalizada, a prática da religião é criminalizada. Esse processo de expulsão já existiu, a gente sofre as consequências até hoje e eu não sei se as pessoas têm consciência disso." O filme, de acordo com ele, vem abrir essa janela, para que o público possa enxergar a realidade do dia a dia. Para isso, ele ressalta a participação da professora Diva Guimarães no longa. 'Medida provisória' Divulgação Ela ficou conhecida em 2017, quando se levantou da plateia de um debate de Lázaro e da jornalista Joana Gorjão Henriques, na FLIP daquele ano, para dar um depoimento sobre o racismo sofrido quando era pequena. "Ela está ali não só pela admiração e pelo que vivemos. É para voltar e abrir a janela daquele depoimento de 13 minutos, que é muito forte e faz parte da história do Brasil. O filme está cheio dessas janelas." Além dos desafios do orçamento, trocas de roteiristas e pandemia, motivos mais burocráticos atrasaram o lançamento do longa. "Um membro do governo puxou um boicote pelo filme sem ter assistido, dizendo que era para falar mal do governo", diz. Depois, ele conta, precisou de uma assinatura para trocar de distribuidora, o que demorou um ano. "Só veio quando a gente foi explicar para o público porque estávamos adiando o lançamento e a imprensa noticiou que censura também se faz por burocracia", diz Lázaro. A documentação chegou e ainda precisaram enfrentar os pesos-pesados dos grandes lançamentos, como "Animais Fantásticos, e as disputas pelas salas de cinema. "Estamos remando, e pedimos para as pessoas irem ao cinema logo na primeira semana, para podermos continuarmos em cartaz."