Fuga de investimentos internacionais na China é sinal de alerta... para o Ocidente

Além de crise no mercado imobiliário, China enfrenta fuga de capitais e queda de investimentos estrangeiros 06/01/2021 REUTERS/Aly Song A China já vinha sofrendo uma aguda fuga de capitais desde o início deste ano. O setor imobiliário chinês, o mais pujante do mundo, enfrenta uma crise sem precedentes. Somando tudo ao encolhimento econômico planetário, envolto em inflação disseminada também globalmente, o regime de Xi Jinping está enfrentando seu momento mais complexo neste século 21. E isso não é bom para ninguém, muito menos para os inimigos do comunismo. Pequim sustentou seu acelerado e consistente crescimento nas últimas décadas baseado em um acordo informal com o capitalismo. Para sermos honestos, a China aproveitou-se das contradições que o livre mercado cria quando a sanha por lucros passa por cima, pragmaticamente, de questões ideológicas. Houve até momentos em que novos bilionários, ao justificar a euforia com que investiam no Império do Meio, propagavam uma iminente adesão de supostos ex-comunistas ao regime da acumulação de capitais. Magnatas ingênuos? Temos. Ninguém mentiu para ninguém, mas a matemática antecipava: essa relação multilateral serviria bem mais aos propósitos de Pequim do que aos interesses das grandes corporações ocidentais. Pois o boleto chegou. Diferentemente da volatilidade dos mercados financeiros e especulativos, a China é inflexível quando suas matrizes ideológicas entram na conta. A correria em ré dos investidores advém da tolerância zero à Covid-19 e dos lockdowns sistemáticos e rigorosos decretados, de forma impiedosa, pelo governo chinês. Por lá, as medidas preventivas contra a disseminação das variantes do novo coronavírus assumem ares apocalípticos, só possíveis em regimes ditatoriais e abnegados. Acrescente-se a isso a posição de Pequim em relação à guerra na Ucrânia. Todos sabem que a propagada neutralidade apenas dissimula o apoio (velado, mas determinante) às ambições russas. Vladimir Putin nunca esteve tão dependente dos acenos e agrados chineses. Moscou terminará este ano de 2022 simbolicamente anexada a Pequim. Anotem. O movimento da fuga de capitais da China pode ser apenas um soluço sistêmico, caso os dirigentes chineses voltem a permitir que investidores, especuladores e financistas surfem nas ondas de crescimento que certamente virão nos extremos da Ásia — ainda há muito por fazer naquele imenso continente. Perigoso mesmo será se Xi Jinping continuar emitindo sinais de endurecimento nas posições ideológicas e apostando na internalização das riquezas e negócios. Pego no contrapé, órfão de estadistas, em meio ao esgotamento do próprio sistema econômico, o Ocidente tem mais razões para se preocupar do que para comemorar. Ou melhor, verdade seja dita: por enquanto, não há muito a ser comemorado por essas bandas.

Fuga de investimentos internacionais na China é sinal de alerta... para o Ocidente
Além de crise no mercado imobiliário, China enfrenta fuga de capitais e queda de investimentos estrangeiros
Além de crise no mercado imobiliário, China enfrenta fuga de capitais e queda de investimentos estrangeiros 06/01/2021 REUTERS/Aly Song

A China já vinha sofrendo uma aguda fuga de capitais desde o início deste ano. O setor imobiliário chinês, o mais pujante do mundo, enfrenta uma crise sem precedentes. Somando tudo ao encolhimento econômico planetário, envolto em inflação disseminada também globalmente, o regime de Xi Jinping está enfrentando seu momento mais complexo neste século 21. E isso não é bom para ninguém, muito menos para os inimigos do comunismo.

Pequim sustentou seu acelerado e consistente crescimento nas últimas décadas baseado em um acordo informal com o capitalismo. Para sermos honestos, a China aproveitou-se das contradições que o livre mercado cria quando a sanha por lucros passa por cima, pragmaticamente, de questões ideológicas. Houve até momentos em que novos bilionários, ao justificar a euforia com que investiam no Império do Meio, propagavam uma iminente adesão de supostos ex-comunistas ao regime da acumulação de capitais. Magnatas ingênuos? Temos.

Ninguém mentiu para ninguém, mas a matemática antecipava: essa relação multilateral serviria bem mais aos propósitos de Pequim do que aos interesses das grandes corporações ocidentais. Pois o boleto chegou. Diferentemente da volatilidade dos mercados financeiros e especulativos, a China é inflexível quando suas matrizes ideológicas entram na conta.

A correria em ré dos investidores advém da tolerância zero à Covid-19 e dos lockdowns sistemáticos e rigorosos decretados, de forma impiedosa, pelo governo chinês. Por lá, as medidas preventivas contra a disseminação das variantes do novo coronavírus assumem ares apocalípticos, só possíveis em regimes ditatoriais e abnegados.

Acrescente-se a isso a posição de Pequim em relação à guerra na Ucrânia. Todos sabem que a propagada neutralidade apenas dissimula o apoio (velado, mas determinante) às ambições russas. Vladimir Putin nunca esteve tão dependente dos acenos e agrados chineses. Moscou terminará este ano de 2022 simbolicamente anexada a Pequim. Anotem.

O movimento da fuga de capitais da China pode ser apenas um soluço sistêmico, caso os dirigentes chineses voltem a permitir que investidores, especuladores e financistas surfem nas ondas de crescimento que certamente virão nos extremos da Ásia — ainda há muito por fazer naquele imenso continente.

Perigoso mesmo será se Xi Jinping continuar emitindo sinais de endurecimento nas posições ideológicas e apostando na internalização das riquezas e negócios. Pego no contrapé, órfão de estadistas, em meio ao esgotamento do próprio sistema econômico, o Ocidente tem mais razões para se preocupar do que para comemorar. Ou melhor, verdade seja dita: por enquanto, não há muito a ser comemorado por essas bandas.