Artigo -Aliança estratégica de Joe Biden para defender a Ucrânia contra a Rússia – Por Leila Bijos

As esperanças do mundo se voltaram para a posse do presidente Joe Biden, em 20 de janeiro de 2021, numa euforia generalizada, idealizando uma total reparação dos danos causados por seu antecessor, Donald Trump, nas relações políticas com aliados e parceiros de longa data, dentre eles Coreia do Sul e Japão, com sequelas graves para […]

Artigo -Aliança estratégica de Joe Biden para defender a Ucrânia contra a Rússia – Por Leila Bijos

As esperanças do mundo se voltaram para a posse do presidente Joe Biden, em 20 de janeiro de 2021, numa euforia generalizada, idealizando uma total reparação dos danos causados por seu antecessor, Donald Trump, nas relações políticas com aliados e parceiros de longa data, dentre eles Coreia do Sul e Japão, com sequelas graves para a Europa. No discurso presidencial, Biden assegurou aos aliados europeus o compromisso de Washington com sua segurança, prometendo-lhes: “A América está de volta. A aliança transatlântica está de volta.”

Tropeços ao longo do caminho, correção de rumos, o capital político que Biden investiu para fortalecer os laços com a Europa valeu a pena durante o atual impasse da guerra da Rússia contra a Ucrânia. A coesão da OTAN no período que antecedeu a invasão e a robustez da resposta econômica e de segurança liderada pelos EUA em suas consequências são testemunhos do valor da aliança para os EUA – bem como da importância da liderança dos EUA em tempos de crise.

O legado de Trump também pairou como nuvem negra sobre outros movimentos de segurança iniciais de Biden, incluindo o reengajamento diplomático com o regime no Irã. A abordagem de pressão máxima de Trump, que incluiu abandonar o acordo de 2015 para conter o programa nuclear do Irã, traduziu-se em verdadeiro fracasso, pois Teerã respondeu expandindo suas atividades nucleares e assumindo uma postura regional mais agressiva. Biden inicialmente procurou impulsionar a diplomacia multilateral em um esforço para reviver o acordo nuclear, mas as negociações fizeram progressos hesitantes e seu resultado permanece incerto. O chamado grupo P5 + 1 – cinco membros do Conselho de Segurança da ONU mais a Alemanha – aceitou encerrar as sanções ligadas ao programa nuclear iraniano, em troca de seu desmantelamento. O pacto entrou em vigor em outubro de 2015 e passou a ser aplicado de fato em janeiro de 2016, após a Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA) ter verificado que o programa nuclear iraniano tem fins pacíficos. Isso levou ao levantamento, quase imediato, das sanções de países e da ONU relacionadas ao programa nuclear do Irã, incluindo as aplicadas aos setores de finanças, comércio e energia. Bilhões de dólares de bens congelados de iranianos foram liberados. As sanções, diz o acordo, podem ser relançadas, caso o Irã viole os termos do que foi acertado. A IAEA, que monitora o pacto, repetidamente confirmou que os iranianos vêm, realmente, fazendo a sua parte. O acordo permite que o Irã prossiga no desenvolvimento de seu programa nuclear para fins comerciais, médicos e industriais, em linha com os padrões internacionais de não proliferação de armas atômicas. Detalhe importante: o pacto se aplica exclusivamente ao programa nuclear. Ele não vale para o programa de mísseis balísticos, abusos dos direitos humanos, apoio a organizações terroristas e supostas atividades de desestabilização no Oriente Médio.

A humilhação pública de Biden ocorreu em agosto do mesmo ano, durante a retirada dos últimos 2.500 soldados dos EUA no Afeganistão. A subsequente tomada do país pelo Talibã e a caótica evacuação final pelos EUA e seus aliados da OTAN de Cabul foi um choque para o mundo.

Esboços de uma estratégia de segurança inicial dos EUA que prioriza a diplomacia, evidente em seus primeiros compromissos com o Irã, resvala numa ausência de foco, que depende de uma modernização das forças armadas dos EUA, bem como revisões específicas de tópicos sobre armas nucleares, defesa antimísseis e o uso de drones armados fora dos campos de batalha ativos.

Cenários estratégicos implicam em sua habilidade de conter o confronto com a Rússia sobre a Ucrânia – e se ele é ou não capaz de resistir à tentação de recorrer ao uso das forças armadas dos EUA à medida que surgem novas crises durante sua presidência.

Como Biden navegará na próxima fase do confronto do Ocidente com a Rússia? Ele pode simultaneamente aumentar o compromisso dos EUA com a segurança da Europa e, ao mesmo tempo, enfrentar o desafio representado pela China? Pode Biden ter sucesso em aprofundar as parcerias de segurança na Ásia sem plantar as sementes para uma nova Guerra Fria com a China?

Observadores europeus questionam a decisão de confiar tanto nos EUA para sua própria segurança, particularmente aqueles que defendem o aumento da “autonomia estratégica” da Europa diante de uma mudança no foco estratégico de Washington para a China.

Incidentes diplomáticos são reforçados, principalmente, depois do anúncio surpresa do acordo AUKUS entre os EUA, o Reino Unido e a Austrália, que, ao causar o cancelamento da compra de submarinos franceses pela Austrália em favor de uma oferta dos EUA, criou um mal-estar com Paris.

Estaria Biden manejando habilmente a crise na Ucrânia? Enquanto a guerra se arrasta pelo quarto mês, a Ucrânia tem desafiado as expectativas. Com a ajuda externa do presidente Joe Biden fornecendo mais de US$ 20 bilhões em assistência de segurança adicional, incluindo artilharia, veículos blindados e sistemas avançados de defesa aérea, militares ucranianos conseguiram forçar as tropas russas a se retirarem de Kiev, à medida que a batalha se desloca para o sul e leste do país. As ambições dos EUA se traduzem em ajudar a Ucrânia a se defender para enfraquecer a Rússia para que ela seja incapaz de realizar outra invasão desse tipo, principalmente em face da ameaça à Lituânia com “consequências” por bloqueio sobre Kaliningrado. A segurança europeia em meio a guerra da Rússia contra a Ucrânia tem sido o compromisso primordial de Biden.

Aprofundar e expandir as parcerias de segurança dos Estados Unidos diante do maior desafio à liderança global desde o fim da Guerra Fria exigirá de Biden o fortalecimento dos laços com os aliados asiáticos, como Taiwan, a solidificação de parcerias nascentes com potências regionais – particularmente a Índia, mas também o Vietnã.

Enfrentar esse desafio não será fácil, em face de uma liderança chinesa cada vez mais assertiva sob Xi Jinping, e a relutância em antagonizar a China, que continua sendo o principal parceiro comercial de muitos países.