Após morte de Moïse, congoleses se assustam e evitam as ruas no RJ

Júlia Barbon e Tércio TeixeiraRio de Janeiro, RJ "Como vocês sabem que a gente mora aqui?", pergunta Cyrille Mamanu, 25, com os olhos arregalados. A expressão séria ainda não deixa ver o aparelho fixo nos dentes, exposto num sorriso à medida que a conversa se estende e ele baixa a guarda. "Sabe por que a gente está perguntando isso? Porque está chegando muita gente querendo saber onde a gente mora para poder fazer maldade também", explica-se aos repórteres. Até semana passada, ele não estava acostumado a receber esse tipo de visita. Uma linha de trem de um lado e uma estrada esburacada do outro separam o asfalto de Barros Filho, bairro na zona norte do Rio de Janeiro, do conjunto de 63 "predinhos" de cinco andares onde Cyrille e parte da comunidade congolesa se concentraram ao, em sua maioria, fugir da violência no país. São cerca de 4.500 apenas na cidade, estima Fernando Mupapa, 53, presidente da Comunidade da República Democrática do Congo no Brasil (CRDCB). A maioria está agrupada nesse e em outros bairros da região, como Brás de Pina, Madureira e o Complexo da Maré. Desde que Moïse Mugenyi Kabagambe foi morto a pauladas num quiosque na Barra da Tijuca, no último dia 24, o clima está diferente. "Estou com medo até de sair na rua. Estávamos andando no bairro agora meio assim", diz Chadrack Nkusu, 26, que morou com o jovem. Muitos nessas áreas conheciam e participaram dos protestos pela morte do jovem, quando a família diz ter sido intimidada por dois policiais militares. Moisés, como também é conhecido, vivia indo e vindo da casa da mãe, de amigos ou de familiares. Ali pouco importa quem, de fato, é parente de sangue. "A mãe do outro é mãe para mim também. O mesmo respeito que tenho pelo meu pai, eu tenho pelo pai do outro", afirma com sotaque angolano a cabeleireira Sophia, que não disse o sobrenome. "Aqui quando se fala 'senhora' todo mundo já fica 'e eu sou velha?', mas para nós é sinal de respeito." A cultura africana de irmandade, a língua francesa e a necessidade acabam unindo não só os congoleses como outras nacionalidades do continente. Sem ter a carteira assinada, optam pelas favelas pelo aluguel mais baixo e pela ausência de custos com água e energia. Assim chegou há nove meses a angolana Mimosa Katanga Maria, 36, que quis ver seu nome publicado em português. Veio sozinha e sobreviveu com a ajuda de colegas, depois que um amigo de seu filho "foi morto por bandidos" e a família passou a ser ameaçada. "No começo foi difícil porque não tava com dinheiro, agora tá começando a vender", fala com a pronúncia carregada, sentada no azulejo da sala enquanto esmaga a farinha de mandioca com um pilão. A cabeça está envolta num lenço, e o corpo, coberto por um vestido estampado em azul. Em mais nove horas de preparação, a massa vai se transformar na chikuanga (se lê "quicuanga"), espécie de broa servida com carnes e peixes. A panela vai render 25 unidades, cada uma vendida a R$ 5 sob encomenda, o que dá R$ 125 sem subtrair as despesas. O aluguel nos "predinhos" de Barros Filhos sai por cerca de R$ 400, dependendo do imóvel. "A gente praticamente trabalha para pagar a locação", afirma Cyrille, aproveitando o tempo da entrevista para enrolar o "dread" do próximo cliente com agulha de crochê. O jovem conta que fez curso técnico de eletricista no Congo, mas por aqui atua principalmente como cabeleireiro, como muitos africanos. Teve que aprender novos cortes quando chegou, como o famoso "disfarçado", curto com dégradé suave até a nuca. Africano é vaidoso, diz ele, usando cordão da Dolce & Gabbana, chinelo vermelho da "Coke", calça jeans e uma camisa branca estampada com o rosto de Moïse. Esse, por outro lado, "se tivesse sido pego pelo esquadrão da moda, estava ferrado", brinca com os olhos marejados. Já Chadrack conseguiu exercer a formação em pedagogia como professor de francês em comunidades, mas também nunca conseguiu emprego fixo. No apartamento onde os dois moravam com Moïse não há geladeira, e a comida tem que ser consumida logo ou refrigerada nos vizinhos. A convivência em geral é tranquila entre africanos e brasileiros, contam –em Barros Filho há até asiáticos, o que é raro em favelas do Rio. A rivalidade só aparece no campo de futebol, quando congoleses vestem azul, vermelho e amarelo. "A gente joga quando dá, porque geral é de correria [trabalha muito]", diz o flamenguista Cyrille. A igreja evangélica, com unidades espalhadas por várias ruas nessa região, é outro ponto em comum entre os dois povos. A Assembleia de Deus Betesda Internacional, em Brás de Pina, é uma das que reúne a comunidade com cultos em lingala e francês. Mas mesmo com a integração, o brasileiro ainda conhece pouco sobre a cultura africana, avalia a angolana Sophia: "Quando você chega aqui e o brasileiro começa a te fazer perguntas, eu fico assim: ué, mas na escola tu não aprendeu? O que passam para você na aula na história?", questiona. Muitos não sabem, por exemplo, que o mesmo gentílico (c

Após morte de Moïse, congoleses se assustam e evitam as ruas no RJ

Júlia Barbon e Tércio Teixeira
Rio de Janeiro, RJ

"Como vocês sabem que a gente mora aqui?", pergunta Cyrille Mamanu, 25, com os olhos arregalados. A expressão séria ainda não deixa ver o aparelho fixo nos dentes, exposto num sorriso à medida que a conversa se estende e ele baixa a guarda.

"Sabe por que a gente está perguntando isso? Porque está chegando muita gente querendo saber onde a gente mora para poder fazer maldade também", explica-se aos repórteres. Até semana passada, ele não estava acostumado a receber esse tipo de visita.

Uma linha de trem de um lado e uma estrada esburacada do outro separam o asfalto de Barros Filho, bairro na zona norte do Rio de Janeiro, do conjunto de 63 "predinhos" de cinco andares onde Cyrille e parte da comunidade congolesa se concentraram ao, em sua maioria, fugir da violência no país.

São cerca de 4.500 apenas na cidade, estima Fernando Mupapa, 53, presidente da Comunidade da República Democrática do Congo no Brasil (CRDCB). A maioria está agrupada nesse e em outros bairros da região, como Brás de Pina, Madureira e o Complexo da Maré.

Desde que Moïse Mugenyi Kabagambe foi morto a pauladas num quiosque na Barra da Tijuca, no último dia 24, o clima está diferente. "Estou com medo até de sair na rua. Estávamos andando no bairro agora meio assim", diz Chadrack Nkusu, 26, que morou com o jovem.

Muitos nessas áreas conheciam e participaram dos protestos pela morte do jovem, quando a família diz ter sido intimidada por dois policiais militares. Moisés, como também é conhecido, vivia indo e vindo da casa da mãe, de amigos ou de familiares. Ali pouco importa quem, de fato, é parente de sangue.

"A mãe do outro é mãe para mim também. O mesmo respeito que tenho pelo meu pai, eu tenho pelo pai do outro", afirma com sotaque angolano a cabeleireira Sophia, que não disse o sobrenome. "Aqui quando se fala 'senhora' todo mundo já fica 'e eu sou velha?', mas para nós é sinal de respeito."

A cultura africana de irmandade, a língua francesa e a necessidade acabam unindo não só os congoleses como outras nacionalidades do continente. Sem ter a carteira assinada, optam pelas favelas pelo aluguel mais baixo e pela ausência de custos com água e energia.

Assim chegou há nove meses a angolana Mimosa Katanga Maria, 36, que quis ver seu nome publicado em português. Veio sozinha e sobreviveu com a ajuda de colegas, depois que um amigo de seu filho "foi morto por bandidos" e a família passou a ser ameaçada.

"No começo foi difícil porque não tava com dinheiro, agora tá começando a vender", fala com a pronúncia carregada, sentada no azulejo da sala enquanto esmaga a farinha de mandioca com um pilão. A cabeça está envolta num lenço, e o corpo, coberto por um vestido estampado em azul.

Em mais nove horas de preparação, a massa vai se transformar na chikuanga (se lê "quicuanga"), espécie de broa servida com carnes e peixes. A panela vai render 25 unidades, cada uma vendida a R$ 5 sob encomenda, o que dá R$ 125 sem subtrair as despesas.

O aluguel nos "predinhos" de Barros Filhos sai por cerca de R$ 400, dependendo do imóvel. "A gente praticamente trabalha para pagar a locação", afirma Cyrille, aproveitando o tempo da entrevista para enrolar o "dread" do próximo cliente com agulha de crochê.

O jovem conta que fez curso técnico de eletricista no Congo, mas por aqui atua principalmente como cabeleireiro, como muitos africanos. Teve que aprender novos cortes quando chegou, como o famoso "disfarçado", curto com dégradé suave até a nuca.

Africano é vaidoso, diz ele, usando cordão da Dolce & Gabbana, chinelo vermelho da "Coke", calça jeans e uma camisa branca estampada com o rosto de Moïse. Esse, por outro lado, "se tivesse sido pego pelo esquadrão da moda, estava ferrado", brinca com os olhos marejados.

Já Chadrack conseguiu exercer a formação em pedagogia como professor de francês em comunidades, mas também nunca conseguiu emprego fixo. No apartamento onde os dois moravam com Moïse não há geladeira, e a comida tem que ser consumida logo ou refrigerada nos vizinhos.

A convivência em geral é tranquila entre africanos e brasileiros, contam –em Barros Filho há até asiáticos, o que é raro em favelas do Rio. A rivalidade só aparece no campo de futebol, quando congoleses vestem azul, vermelho e amarelo. "A gente joga quando dá, porque geral é de correria [trabalha muito]", diz o flamenguista Cyrille.

A igreja evangélica, com unidades espalhadas por várias ruas nessa região, é outro ponto em comum entre os dois povos. A Assembleia de Deus Betesda Internacional, em Brás de Pina, é uma das que reúne a comunidade com cultos em lingala e francês.

Mas mesmo com a integração, o brasileiro ainda conhece pouco sobre a cultura africana, avalia a angolana Sophia:

"Quando você chega aqui e o brasileiro começa a te fazer perguntas, eu fico assim: ué, mas na escola tu não aprendeu? O que passam para você na aula na história?", questiona.

Muitos não sabem, por exemplo, que o mesmo gentílico (congolês) é usado para se referir aos cidadãos da República Democrática do Congo e da República do Congo, países distintos, ainda que fronteiriços. A migração do Congo para o Brasil ocorre em volume bem menor que a da RDC.

O número oficial de congoleses no país é inferior ao estimado pela comunidade. Foram 2.015 registros de residência concedidos desde 2010, somados a 1.400 que ainda devem estar aguardando o reconhecimento como refugiados, segundo levantamento feito pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) para a Folha.

A cabeleireira Ângela Kalukmba, 53, tem na ponta da língua a data da chegada: 14 de outubro de 1993. "Como posso esquecer? Eu sou refugiada, não pode. No país dos outros você tem que saber tudo: a data que você chegou, por que você chegou, por que saiu de lá", afirma.

Outra imigrante, que não quis se identificar, pergunta sobre onde conseguir doações para a comunidade e conta como funcionam as coisas no conjunto habitacional, onde os tiroteios não são tão frequentes, mas existem. Você só não pode se meter nas coisas deles, diz, referindo-se aos traficantes.

No Rio de Janeiro, os riscos são invisíveis, pressente uma congolesa numa rua a alguns quilômetros dali. Ela sussurra que, enquanto conversa, não sabe quem está observando. Depois da morte de Moïse, passou a pegar Uber para lá e para cá, com medo.

"Africano não fica na rua sozinho, fica em grupo", explica Cyrille. Se estivessem juntos naquela noite, o amigo teria voltado com o dinheiro do isopor que queria comprar para não precisar mais trabalhar para os outros. "Mas voltou num caixão", lamenta.

Como ajudar Com vagas de trabalho

Cáritas: (61) 3521-0350 / (21) 99580-4488
caritas@caritas.org.br

Com doações à família de Moïse
www.justicapormoise.meurio.org.br

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